Reflexão 3 min de leitura

Salvação não se discute?

Tem dia que você olha pra quem fala de salvação e pensa que é coisa de gente fraca. Mas passa um tempo… e você mesmo tá lá.

Tem dia que você olha pra quem fala de salvação e pensa:

— Coisa de gente fraca. De quem não aguenta o tranco. De quem precisa se apegar a alguma ilusão.

Mas passa um tempo… e você mesmo tá lá.

Apego. Pedido. Desespero. Você mesmo tá chorando escondido no banho, querendo um sinal, um milagre, um conforto. Porque, em algum momento, você desdenha da salvação — e, em outro, se joga de joelhos por ela. Agora mesmo você pode estar lembrando de algum momento assim.

Qual é a salvação que você busca?

Essa pergunta parece religiosa. Parece política. Mas ela é, antes de tudo, íntima. E não há nada mais comum entre nós do que aquilo que é íntimo.

Mas então… do que você está tentando se salvar?

Da pressa, da comparação, da espera por um reconhecimento que nunca vem?

Da conta no vermelho? Da sua própria cabeça? Do seu casamento?

Talvez você diga que não precisa se salvar de nada. Talvez considere que já se salvou.

Mas olha direito. Até quem se sente salvo, às vezes, escapa pela tangente.

Fala bonito, fala certo, levanta a bandeira certa. E, no fim do dia, também se afunda.

Quem acha que não precisa de salvação — pode estar se agarrando ao privilégio ou se rendendo à desesperança. Ambos são confortáveis, à sua maneira.

E quem acredita que só existe uma salvação — provavelmente ainda não entendeu a própria dor. E, provavelmente, despreza a dos outros.

Tem gente que se salva rezando.

Outros, lutando.

Tem quem se salva voltando pra casa e tomando um banho quente.

Pagando uma conta.

Dormindo uma noite inteira.

A salvação não é um troféu. Às vezes, ela é só um alívio, uma suspensão entre desastres. Um fiapo de paz numa fase difícil. E isso — isso que foi dito — não pertence a um partido, nem a uma religião, nem a um grupo.

A salvação não é posse de ninguém. Nem das senhoras devotas, nem das feministas acadêmicas, nem dos que se acham superiores porque já “desconstruíram tudo”.

Ninguém se livra do medo da morte de quem se ama. Ninguém supera o medo do desconhecido. Ninguém está a salvo do sentimento de insignificância. No fundo, todo mundo — todo mundo mesmo — precisa se salvar.

Da tristeza.

Do cansaço.

Da ansiedade.

Da solidão.

E quando a salvação vem, ninguém se importa se ela chegou por reza, por política pública, por terapia, por abraço, por sorte, por insistência ou por milagre.

O que importa é que ela veio. É uma fraternidade invisível que nos faz iguais no desamparo, na consolação e no alento. É uma pulsação coletiva que atravessa todas as formas de corpos e histórias, quem acredita em Deus, em amizade, em política, no acaso.

A questão não é se você precisa de salvação. É se você já teve ou tem coragem de admitir isso: que já desejou e que já teve.

Porque, senão, acreditamos na farsa de que os que a buscam são alienados ou fracos.

Por que é importante prestar atenção nisso?

Porque assim, talvez a gente entenda melhor que todos querem salvar a si mesmos ou salvar algo: um amor, uma lembrança, um país.

E o mais importante: parar de querer salvar o outro de ser isso — o outro.

Esses tantos “alguéns” que buscam formas de salvação diferentes das nossas, mas profundamente parecidas no desejo mais simples de todos: preservar e continuar a vida.

Espiritualidade Desamparo Consolo
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