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"Quero ter um filho, quero dar a morte para alguém…" — pensando sobre o amor e a finitude

Este é um texto que busca refletir sobre parentalidade, vida e finitude.

Este é um texto que busca refletir sobre parentalidade, vida e finitude. O tema pode causar estranhamento à primeira vista, mas a intenção não é chocar. É um convite para perceber, com cuidado e atenção, como o amor e a responsabilidade devem percorrer todo o ciclo da existência. Vamos a ele…

Imagine a cena: uma pessoa sentada, olhando pela janela, refletindo sobre o desejo de ter um filho. E, em meio aos seus pensamentos, surge uma frase que ninguém ousaria verbalizar: “Quero ter um filho, quero dar a morte para alguém.”

A primeira reação é, naturalmente, de repulsa. A cena parece absurda, insana, coisa de gente cruel. Quem, em sã consciência, desejaria dar a morte para alguém? E mais: quem, com esse tipo de pensamento, poderia sequer cogitar ter um filho?

Esse choque, no entanto, só existe porque fomos ensinados a pensar a paternidade e a maternidade apenas pelo viés do nascimento. Mas, quando prestamos mais atenção, o pensamento de querer ter um filho e, com isso, dar a morte para alguém, não deixa de soar brutal, mas também não é uma mentira.

Há algo profundamente disfuncional na forma como a sociedade ocidental constrói a ideia de parentalidade: ela só inclui o nascimento, o florescimento, a continuidade. O assunto se encerra aí, no registro da celebração. Mas o fato inescapável é que, ao dar vida, entregamos também alguém ao ciclo da morte. Em outras palavras: gerar é, ao mesmo tempo, assinar uma sentença de fim.

Abordar essa questão pode soar mórbido ou indelicado, mas a negação da morte dentro da parentalidade tem consequências profundas. Uma delas é a formação de pessoas frágeis diante da própria finitude: indivíduos que não sabem perder, não sabem se despedir, não sabem elaborar o luto.

Talvez um primeiro passo importante seja reconhecer o pacto completo que a parentalidade exige: ser mãe e pai não é só um compromisso com a vida, mas com a morte também. Isso implica abandonar a fantasia de que o amor protege da finitude e aceitar que o verdadeiro amor prepara para ela.

A morte não deveria ser tratada como um acidente de percurso, algo excepcional ou a ser negado. Reconhecê-la não significa viver com medo, nem criar filhos obcecados por tragédias. Significa incluí-la como dado real, inevitável, parte de um ciclo no qual perdas e despedidas são naturais, e no qual o sofrimento pode ser atravessado com consciência e cuidado.

Nesse sentido, é preciso revisitar a própria ideia de proteção. Proteger um filho não é blindá-lo da realidade, mas ajudá-lo a construir estratégias internas para vivê-la. Uma parentalidade que inclui a morte como parte fundamental da existência é, na verdade, uma forma de preparar para a autonomia emocional.

Ensinar que a vida é finita é, em essência, transmitir o valor do tempo, da presença e das escolhas conscientes. É oferecer ao filho a possibilidade de construir um sentido próprio, reconhecendo que cada existência é única e preciosa justamente por fazer parte de um ciclo.

Essa não é uma conversa exclusiva da escola, dos terapeutas ou de especialistas, na verdade é assunto que pertence a intimidade dos vínculos mais profundos. É, acima de tudo, uma conversa sobre o amor, o amor que se demonstra com responsabilidade, cuidado e profundo respeito pela vida do outro.

Quando se pensa com atenção, torna-se quase inacreditável escolher ter um filho sem considerar uma verdade tão simples quanto inevitável: se tudo correr bem, um dia ele ficará sem você. Parece óbvio, mas imagine as mudanças que levar essa certeza a sério poderia trazer à criação de uma criança. As companhias, as despedidas, a impermanência, ganhariam outro peso, e o sagrado disso tudo se revelaria com mais clareza.

Ser mãe ou pai, queira-se ou não, ultrapassa a tarefa elementar de garantir e preservar a vida. É também preparar para a dignidade de viver e, inevitavelmente, de morrer. Longe de ser algo sombrio, isso é, na verdade, um gesto de extrema ternura.

Ter um filho é, em si, um gesto profundo de confiança na vida. É dizer, sem palavras, que a humanidade deve e merece seguir adiante, e que o mundo vale a pena. Este vasto mundo e esta imensa vida são a herança mais valiosa que se pode ter: um tesouro feito de encontros e presenças, saudades e despedidas.

Parentalidade Finitude Amor
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