Reflexão 3 min de leitura

O vício do convencido

A origem da palavra convencido é uma ironia que passa despercebida: vem do latim convincere — vencer junto, ou vencer pelo argumento.

A origem da palavra convencido é uma ironia que passa despercebida: vem do latim convincere — vencer junto, ou vencer pelo argumento. Era alguém que cedeu à razão, que reconheceu no outro uma força maior de sentido.

Hoje, ser convencido é o oposto disso: é crer que já se sabe tudo, que nada mais pode derrubar suas certezas. Além disso, carrega uma conotação arrogante: alguém cheio de si, certo do próprio valor, impermeável à crítica. Um paradoxo completo — aquele que deveria ter sido vencido por um bom argumento virou, na linguagem cotidiana, justamente quem se recusa a escutar qualquer argumento.

Vivemos numa sociedade dos convencidos. O convencido de agora não escuta para entender — escuta para confirmar. Troca o espaço do diálogo pela trincheira da opinião. Ser convencido hoje não é uma posição — é um estado crônico. E, como todo vício, começa com uma pequena dose de alívio e termina com a completa dependência da ilusão.

Estamos mal, mas parecemos certos. Estamos ansiosos, por termos discursos antecipados. Apavorados, mas treinados na pose. A performance da convicção, gerada pela máquina de moer as relações e a convivência.

Como todo adicto, o convencido também precisa de doses diárias para manter seu estado alterado. Mas é um alívio curto, instável, que exige reposição constante — um vídeo, um conceito, um deus — que afirme sua opinião.

O convencido vive em abstinência de dúvida. E, como um dependente, foge do desconforto da própria complexidade, das próprias contradições. A certeza vira uma droga. A certeza, anestesia. Mas, o convencido não é aquele que chegou a uma verdade — é aquele que não suporta perdê-la.

O tratamento para o convencido passa por aceitar perder. Porque só quem admite que pode perder uma ideia ainda tem chance de ganhar outra.

Escutar não pra vencer, mas pra ser vencido, seria outra recomendação. Mas quão difícil isso é — porque não implica em aprender, é antes disso: é escutar não para responder, mas, sobretudo, para reconhecer o que não sabe.

Mas, como todo processo de reabilitação, sair do vício do convencido é doloroso. O primeiro estágio da recuperação é a crise: o desconforto de não ter mais a segurança das respostas prontas. Muitos desistem aí. Recaem.

O medo da recaída é real. Porque o mundo não facilita a recuperação. Ao contrário — recompensa os que performam convicção. A sociedade aplaude quem nunca hesita. Ninguém viraliza por dizer “não sei”. Ninguém ganha aplausos por mudar de ideia.

Agora, se ao ler isso você pensou em outros — nos bitolados, nos fanáticos, nos manipulados — repense.

Estamos numa encruzilhada na qual não importa o lado — o convencido é sempre aquele que deixou de escutar.

Não existe proteção contra o vício da convicção. Tão importante como a pergunta que de que lado você está, é se consegue escutar algo que desestabilize o seu. Isso também é um pressuposto contra o massacre, a violência, a ignorância. Parece paradoxal, mas não é. Vivemos rodeados de convencidos — e ninguém se acha um.

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