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O poder da palavra

O que vem à sua mente quando ouve a frase: “O poder da palavra”?

Quando pensamos em poder da palavra, geralmente, não pensamos no poder da palavra da filosofia, da poesia, das ciências, ou das canções, mas daqueles que vivem guiados por ela — especialmente pela fé, como quem vê nela um caminho. A palavra, quando aparece como fé, como prática cotidiana de sobrevivência, como guia, geralmente começa a incomodar.

Quem vive longe deste tipo de relação com a palavra costuma olhar para essa forma de apego à palavra com desconfiança, até mesmo desprezo. A fé na palavra, quando não vem embalada em livro, conceito ou arte, é muitas vezes tida como “fanatismo”, “superstição”, “delírio”.

Mas, o que as pessoas buscam no poder da palavra nem sempre é fuga, nem delírio. Na verdade, antes de mais nada, é algo fundamentalmente humano: o encontro com a palavra e com seu poder. Ou seja, as pessoas que acreditam no poder da palavra estão enraizadas numa das experiências humanas mais fundamentais e profundas que existem.

Mudar essa chave — a ideia de que as pessoas não estão recorrendo a coisas “arcaicas” — e reconhecer que elas estão, na verdade, no coração da experiência humana pode nos ajudar a não estranhar o fundamento dessa busca.

Precisamos parar de desqualificar como atraso algo que não é raso. E não se trata da experiência mística ou religiosa — é anterior a isso. É a palavra como parte do que é estar no mundo — uma condição ancestral que nos dá um lugar comum: somos, todos, seres da linguagem.

Por isso, é importante dizer com todas as letras: esse incômodo não é de uma razão crítica, é de classe. Não se trata do diferente, nem do desconhecido. Se trata do distante. E essa distância não é simbólica — é material.

Segundo dados do IBGE, a renda domiciliar per capita média no Brasil foi de R$ 1.893 em 2023 (liv102174_informativo.pdf). Isso significa que, em média, cada pessoa vive com pouco mais de um salário mínimo por mês. A desigualdade é tamanha que, se você ganha R$ 3.500 mensais, provavelmente já está entre os 20% com maior rendimento do país. Mas a maioria de nós não percebe isso. Ganhar R$ 3.500 nos faz sentir “classe média”, mas estatisticamente nos aproxima muito mais dos ricos do que dos pobres. E essa ilusão atrapalha qualquer tentativa real de enxergar — e enfrentar — as distâncias sociais.

É perfeitamente possível viver no Brasil sem nunca ter conversado, de igual pra igual, com a realidade da maioria, a não ser uma convivência com faxineiras, entregadores, prestadores de serviços. Relações atravessadas por subordinação. Não há troca real. Não há escuta. Só distância — econômica, simbólica e afetiva. E essa distância, esse abismo, cria uma ilusão perigosa: achar que sabemos o que estamos dizendo, quando nem chegamos perto.

Ser mais coerente talvez passe por admitir que quem vive no centro talvez confunda o poder da palavra — que é central na vida humana — com delírio de quem não tem mais nada. Mas mesmo quem não tem mais nada não erra quando se ancora no que também sustenta a vida: a palavra.

Parece uma lógica torta? Torto é ancorar a lucidez no distanciamento social.

Não se trata de relativizar mentiras nem de legitimar manipulações religiosa. Trata-se de não confundir ignorância com distanciamento social, e crítica com desprezo.

Essa crítica ao “fanatismo” vem, muitas vezes, de um lugar que se diz racional, mas que é cínico. Usa a palavra para diagnosticar a loucura do outro — sem jamais admitir sua própria condição de isolamento, porque finge neutralidade, mas está entrincheirado. Denuncia o “fanatismo” como se fosse um vírus de ignorantes, mas não vê o dogmatismo do seu próprio distanciamento.

Trata-se, portanto, de reconhecer que, muitas vezes, o que chamamos de ignorância é só distância. Que desprezamos o que nunca tocamos.

Nós, que desejamos justiça social e igualdade, já percebemos que nossas palavras estão enfraquecidas. Mas talvez ainda não tenhamos compreendido por quê. Talvez, se quisermos mesmo provocar alguma mudança, precisemos admitir: o que esvazia nossas palavras é o afastamento da vida concreta de quem não se parece conosco.

E, se for para recomeçar, terá que ser assim — com aproximação, gesto por gesto, palavra por palavra.

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