Iríamos todas nós, as mulheres do Brasil, às praças.
Iríamos todas nós, as mulheres do Brasil, às praças.
Deixaríamos nossos colos em casa. Deixaríamos os sofás importados, os sofás rasgados, as joias que nos seduzem, as baratas que nunca morrem.
Deixaríamos as perucas, os socos na cara, o diploma pendurado no câncer, as chupetas perdidas, os esmaltes de vísceras, as companheiras ciumentas, as folhinhas secas na grama do quintal triste, os homens e os cavalos caros.
Deixaríamos o pano de chão encardido no meio da rua, o lixo cheio de papel higiênico sujo de cocô dos nossos entes queridos, as lingeries decadentes, a tripla jornada, o salário do dia, o pai, o pênis.
Deixaríamos a televisão brilhando sua luz fria no vidro da sala e não mais em nossa cara, o celular dentro da panela de pressão, e acenderíamos o fogo.
Deixaríamos os nossos irmãos folgados, os tios safados e a ampulheta dos nossos ovários enrugados em suas mãos.
Deixaríamos as paredes limpas que nunca puderam ser riscadas, os filhos adultos que murcham nossas tetas, os cachorros que ninguém dá água.
Deixaríamos a pinga, o Rivotril e o yoga.
Deixaríamos nossas tatuagens junto com os recibos do mercado e as poucas moedas do pão de cada dia em cima da mesa.
Deixaríamos as malas, os passaportes e nossa falta de saída.
Deixaríamos o floral do nosso suor em um copo pra alguém tomar, junto com nosso remédio tarja preta.
Deixaríamos nossos talentos, nossa sensibilidade, nossa sabedoria, nossos sagrados, nossa resiliência, socados no rabo do caixa eletrônico.
Deixaríamos as compras do mercado sobre a cabeça de quem tem fome e não faz a sua própria comida.
E iríamos para a praça chorar.
Chorar muito e por doze horas seguidas.
Chorar absolutamente todas as nossas mortas, compartilhar nossa desunião e fazer um enorme e constrangedor dilúvio desamparado, que naufragasse todas as ilusões do feminino.
Quem sabe, ficaríamos, finalmente, sem um lugar pra ter que chamar de nosso.
Quem sabe, seríamos arrancadas da produção desse visgo pegajoso da condição feminina.
Quem sabe, assim, ainda mais esgotadas, cansadas, cheias de catarro na cara, juntas nas humildes pracinhas, expostas, sem a proteção de nossas vassouras e silicones, nos deixaríamos a nós mesmas em paz e abertas para ir a lugar nenhum.