Este texto é uma continuidade do anterior, no qual fiz o compromisso de trazer reflexões sobre práticas possíveis baseadas no conceito de "curar sem resolver".
Este texto é uma continuidade do anterior, no qual fiz o compromisso de trazer reflexões sobre práticas possíveis baseadas no conceito de “curar sem resolver”.
Não se trata de oferecer receitas prontas, afinal, quando falamos de cuidado, não existem fórmulas universais. O que proponho são elucidações: pequenos deslocamentos no olhar e estratégias que ajudam a abrir caminhos.
Em vez de protocolos rígidos, apresento ideias para que você, a partir do seu lugar, da sua sensibilidade e da singularidade das pessoas com quem está, possa adaptar, inventar e experimentar formas possíveis de cuidado.
Organizei o texto em tópicos, buscando clareza e didática. Serão apresentadas três práticas possíveis, todas elas envolvendo o: Nomear.
Inicio esta série de práticas sobre o ‘curar sem resolver’ falando de ‘nomear’, porque todo cuidado, antes de existir no gesto, nasce na palavra que o invoca. Dar nome às coisas, chamá-las pelo que são, é, hoje, um ato político da mais alta importância. Os nomes do cuidado têm tanto peso quanto os próprios gestos: sem eles, o cuidado se torna mais difícil de acessar e reconhecer. Ao nomeá-lo, abrimos o olhar para ampliar seu território e recuperar um campo de cura, que pode nos dizer mais respeito, do que supomos ou imaginamos.
Vamos as práticas:
Prática 1: Nomear o cuidado: mapeamento de redes de sustento
Em certo projeto, trabalhando com grupo de adolescentes em situação de acolhimento institucional e vulneralibilidade social, propus a construção de uma figura que chamei de “mãe social.” A ideia era deslocar o peso de uma ausência (a mãe real, ideal ou ferida) para a possibilidade de uma rede de figuras confiáveis, ainda que fragmentada, ainda que não nomeada como “família”.
Convidei os adolescentes a olhar para o contexto de suas próprias vidas e identificar pessoas, lugares e situações que respondessem às perguntas que apresento a seguir. Ao longo de um tempo, fomos investigando juntos: eles traziam respostas, voltavam aos seus contextos, encontravam novas pistas e retornavam com outras, até que, pouco a pouco, fomos mapeando possibilidades
- Com quem você pode apenas conversar sobre o dia, sem medo de julgamento?
- Quem é capaz de escutar quando você está mal, mesmo sem dar conselhos?
- Com quem você se sente seguro para compartilhar algo íntimo, como um erro ou uma vergonha?
- Quem você procuraria se precisasse de um conselho prático, sobre escola, trabalho, relacionamento?
- Para quem você poderia pedir ajuda material, como um dinheiro emprestado, uma roupa emprestada, ou mesmo ajuda para comprar algo?
- Quem é alguém que você não conversa muito, mas sente acolhimento só pela presença?
- Alguém a quem você pode pedir uma coisa simples, como assistir algo ou andar até a esquina, só para não ficar sozinho?
- Quais são os profissionais que você pode contar?
- Quais lugares fazem você se sentir mais seguro, mais amparado? Uma biblioteca? Uma praça? Uma igreja? Um centro cultural?
- Que formas de arte te oferecem abrigo? Uma música que te acalma? Um poema? Uma série? Filmes?
- Que manifestações culturais te nutrem? Uma dança, um prato de comida típico, uma roda de conversa, uma história contada por alguém mais velho?
- Que conhecimentos e estudos já te ajudaram a seguir? Uma leitura, uma teoria, uma aula, uma palestra que fez sentido num momento difícil?
A partir dessas perguntas, fizemos um mapeamento afetivo e funcional que ajudou a identificar, entre os vínculos e experiências que eles já tinham, diferentes formas de cuidado, não apenas pessoas, mas também lugares, práticas, conhecimentos e expressões culturais que, mesmo de forma parcial ou pontual, ofereciam suporte, acolhimento ou sentido em momentos importantes.
Aqui, ampliar a noção de cuidado para além das pessoas foi um deslocamento fundamental. Quando reconhecemos que o cuidado também pode vir de um lugar onde nos sentimos seguros, de uma canção, de uma história, de um saber que orienta, abrimos espaço para perceber o quanto somos sustentados por uma rede mais ampla e diversa. Isso não diminui a importância dos vínculos humanos, mas nos permite enxergar outras fontes de amparo, muitas vezes silenciosas, mas profundamente potentes.
No fim, cada adolescente construiu a sua própria “mãe social”, distribuindo as demandas entre diferentes presenças e possibilidades, sem concentrar tudo em uma única figura. Isso ajudou a desconstruir a ideia de que o cuidado precisa vir de um só lugar ou assumir uma única forma legítima. Mostrou que apoio pode ser tecido a partir de múltiplas fontes, pessoas, espaços, gestos, referências culturais e que pequenas ofertas, vindas de direções diversas, também sustentam e acolhem.
Mas o resultado mais importante desse processo não foi apenas garantir uma rede de cuidado. Foi perceber o que já existia. Para muitos deles, nomear esses vínculos foi, por si só, um gesto de alívio, dignidade e pertencimento. Como se, ao dar nome ao cuidado, eles pudessem finalmente reconhecê-lo como real, válido e presente.
Nomear o cuidado tornou possível enxergá-lo. E reconhecer o cuidado exige algo essencial: consciência emocional. Quando sentimos que fomos cuidados, ainda que de forma breve, fragmentada, imperfeita, algo se reorganiza por dentro porque o reconhecimento é um combustível emocional.
Antes de cuidar, é preciso saber o que é cuidado. E antes de exigir mais, é preciso saber o que já há. Nomear o cuidado é o primeiro passo para não depender apenas de grandes soluções. É o que nos permite tecer redes reais, com o que temos, com quem temos e com o que somos.
Prática 2: Pequeno inventário do passado: reconhecer o cuidado que nos sustentou
Parar para listar quem já nos cuidou é uma prática simples, mas cheia de significado. Muitas vezes, ao olhar para a nossa história, nos fixamos no que faltou, nas ausências, nas feridas. Mas e se, ao invés disso, fizermos um pequeno inventário das vezes em que fomos cuidados, amparados, protegidos?
Quem já foi cuidado, mesmo que só em alguns momentos ou por pessoas inesperadas, carrega dentro de si uma força essencial e uma base para seguir adiante. Esse inventário pode ser fragmentos de cuidado que constroem a nossa história e nos ajudam a enxergar a rede que tivemos. Fazer esse exercício de nomear e reconhecer o cuidado do passado nos permite ampliar nossa percepção do que é possível no presente. Afinal, se já fomos cuidados, ainda que de formas pequenas e imperfeitas, sabemos que o cuidado existe, pode ser encontrado, pedido e oferecido.
Prática 3: Pequeno inventário do futuro: cultivar os vínculos que ainda não existem
E se, ao invés de apenas olhar para as dores que carregamos, começássemos a imaginar os vínculos que ainda podem surgir? Às vezes, o que nos falta não é apenas o cuidado, mas a crença de que ele pode ser construído.
Fazer um pequeno inventário do futuro é perguntar: quem ainda quero encontrar? Que tipo de presença desejo oferecer? Que espaços quero abrir para relações de confiança, apoio, afeto?
Projetar essas possibilidades é um cuidado com o tempo. Mesmo que ainda não saibamos nomes, rostos ou circunstâncias, imaginar o cuidado futuro é uma forma de manter viva a esperança. Assim como reconhecer o cuidado passado nos fortalece, imaginar o cuidado futuro nos orienta, porque nos move a criar agora as condições para que ele possa acontecer.
Bem, através dessas práticas, percebemos que nomear o cuidado vai muito além de simplesmente identificar suas manifestações, é um processo profundo de reconhecimento que dá sentido às experiências vividas, valoriza os vínculos já existentes e abre espaço para a construção de novos. Reconhecer as formas de cuidado que já recebemos, mesmo que fragmentadas nos ajuda a valorizar a rede que nos sustentou até aqui, fortalecendo nossa autoestima e nossa confiança na existência de vínculos protetores. Ao mesmo tempo, nomear o cuidado que desejamos ou podemos construir no futuro é um gesto de atenção e intencionalidade, que nos convida a imaginar e cultivar relações, espaços e práticas que ampliem nossa capacidade de acolher e ser acolhidos. Assim, o ato de nomear integra passado, presente e futuro e pode ser um ponto de partida para construir redes reais e possíveis, que se formam no movimento contínuo de reconhecimento e criação de cuidado.
As sugestões apresentadas aqui podem ser realizadas tanto individualmente quanto em grupos, adaptadas a diferentes contextos e necessidades. O importante é lembrar que cada prática pode ganhar novas formas conforme atravessa histórias, lugares e pessoas distintas. No próximo texto, darei continuidade a essa reflexão, trazendo outras práticas dentro da perspectiva de “curar sem resolver”, sempre como convites para experimentar, criar e sustentar modos possíveis de cuidado no tempo presente.
Até mais!