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Curar sem resolver: a dignidade do que não melhora

A lógica dominante do cuidado entende cura como resolução, normalização e melhora imediata.

A lógica dominante do cuidado entende cura como resolução, normalização e melhora imediata. Assim, o sofrimento coletivo e estrutural é reduzido a um desvio individual a ser “gerido” emocionalmente. A dor, que é política e social, vira falha pessoal um defeito técnico a ser corrigido para que o sujeito volte a funcionar.

Mas o que acontece quando não há pausa, rede ou recursos? Foi atuando em contextos assim que precisei reaprender o cuidado não como resolução, mas como sustento. Um cuidado que não exige solução para começar a agir. Chamo isso de curar sem resolver.

Curar sem resolver não é uma solução mágica ou paliativa, mas um princípio que reconhece a precariedade como parte constitutiva da vida, sobretudo em um sistema que a produz. A cura, aqui, significa acolher a existência em suas limitações, criando espaços e gestos que não conseguem apagar a dor plenamente, mas reduzam seu domínio sobre a vida. Em outras palavras, significa construir modos reais de fazer o mundo caber novamente no gesto, pequenos atos que sustentem a dignidade e que sejam capazes de interromper o circuito da impossibilidade.

Isso não é “cuidado simbólico”, nem ritual de autocuidado vendido como libertação. Também não é romantizar o sofrimento. É outra coisa. Isso significa criar práticas objetivas e concretas, que atuem no possível: práticas reais, materiais, afetivas e políticas que reduzam o impacto do quanto o não resolvido impede alguém de viver.

O primeiro passo é entender que não existem fórmulas prontas, mas isso não significa que você precise começar do nada ou encontrar soluções brilhantes o tempo todo. O cuidado não precisa ter a ver com originalidade, as ações não precisam ser inéditas ou inovadoras: elas precisam ser contextualizadas. Cada contexto de vida demanda ajustes, pactos e alianças específicas e próprias. Em outras palavras, o cuidado começa no real e no contexto histórico.

É por isso que precisamos recusar a ideia de que a o sofrimento é apenas uma experiência privada. O sofrimento é moldado por relações de classe, raça, gênero e contexto histórico. Por isso, cuidar de alguém também é situar sua dor no mundo e, com isso, romper com o isolamento.

Fazer com que a dor deixe de ser um destino individual possibilita que a experiência da dor e do sofrimento seja situada, dimensionada, e isso significa abrir caminhos que rompam com o isolamento e dessa forma, possam ser criadas condições para que a presença do outro seja invocada, ao mesmo tempo em que se orienta a própria presença em direção ao outro.

Mas pode haver um ponto cego nisso tudo. Muita gente segue esperando pela pessoa certa, pela condição ideal, porque ainda está presa ao parâmetro da solução clássica: melhorar, vencer, sair da situação. No entanto, o cuidado mais potente quase nunca nasce do ideal. Na maioria das vezes, ele emerge das trocas incompletas, dos apoios possíveis e, muitas vezes, esses apoios são frágeis ou parciais. Mas o possível não é o mínimo: é o essencial.

O mais importante, então, é construir alianças reais e vínculos que permitam o revezamento entre presenças, no lugar do isolamento paralisante. É nesse movimento que se forma um campo de cuidado, onde ninguém precisa suportar tudo sozinho, nem ficar refém da fantasia de salvação perfeita.

Essa pode até parecer uma questão óbvia, mas não é. Em um mundo atravessado por idealizações de força, autonomia e solução plena, pensar em redes de apoio levando em consideração suas condições frágeis, instáveis é o exercício de um talento humano fundamental: a capacidade de reconhecer a complexidade das relações, com seus tempos, desvios e limites, que não se ajustam a padrões nem se submetem a expectativas idealizadas.

Esse trabalho, na verdade, é pouco feito e talvez valha mais do que seguir buscando apenas a cura através da solução, porque ele atua como um antídoto contra a solidão, que a promessa de solução muitas vezes reforça. Ele também quebra a lógica produtivista do “dar conta”, porque investe na sustentação e não no desempenho.

Por fim, há um gesto necessário para pensar a cura sem cair na armadilha da solução: fazer algo que não resolve o problema central, mas resolve outra coisa — ou simplesmente oferece algum alívio, algum prazer, por menor que seja. Trata-se de um movimento quase desobediente, até cara de pau. Fazer algo quando tudo grita tudo diz não faz sentido, que não vai mudar nada e ainda assim, fazer. Esse gesto não nega o sofrimento, mas recusa o paralisante “não adianta”.

Nas situações de risco social, de pobreza extrema, de violências cotidianas e negligências estruturais, esse gesto é ainda mais radical porque nele há um enfrentamento da ideia de que nada pode ser feito. Nessas realidades, cuidar de si não é só difícil, mas frequentemente visto como impossível, inútil, ou até um luxo. E é justamente por isso que fazer algo fora do problema se torna muito potente. Fazer algo mesmo quando tudo insiste que não há saída, é um ato de cura, não no sentido clássico, mas no sentido de regar o terreno do possível da vida.

Agir para além do problema pode desencadear três movimentos decisivos.

Primeiro: o que é provisório e incompleto também é cuidado e justamente por isso, carrega uma potência própria. Abre espaço para uma forma de cura que não depende de totalidade, mas que permite atravessar a dor e dar forma à experiência de outro modo. Por ser “imperfeita”, essa via é mais acessível, mais próxima do que é possível no cotidiano — e talvez por isso mesmo, seja menos valorizada. Como forma de dominação, o sistema tende a deslegitimar o que escapa à lógica da eficácia, da correção e do desempenho. E, muitas vezes, sem perceber, nós mesmos acabamos reproduzindo essa negação.

Segundo: emerge a liberdade de ir até onde é possível e não até onde se “deveria” ir. Esse gesto produz um deslocamento ético potente, porque desafia os ideais normativos de sucesso e superação. Em vez da liberdade construída sobre a ficção cultural da escolha plena e do alcance ilimitado de metas, trata-se aqui de uma liberdade situada, que reconhece as condições reais e a densidade das circunstâncias. E é justamente por isso que ela é radical, porque permite agir mesmo sem a promessa de vitória. Não se funda na crença de que “tudo é possível”, mas também não se confunde com conformismo, por isso, é uma liberdade crítica, porque recusa a ideia de que só vale agir se for para superar e, ao fazer isso, libera as ações possíveis.

Terceiro: recupera-se a capacidade de agir pelas bordas, um tipo de ação lateral, muitas vezes a única possível diante de certas circunstâncias. E é justamente por acontecer apesar dos limites, que ela já representa um gesto de ruptura: desafia o bloqueio que o problema tenta impor e reabre possibilidade e afirma outras maneiras de existir e cuidar.

Essa proposta parece algo que se limita a lidar com a precariedade? Uma aceitação passiva, sem crítica? Bem, para a maior parte das pessoas, o cuidado possível, mais potente e radical é justamente aquele a que elas têm acesso. É o cuidado que sustenta, que mantém. Mesmo sem solução imediata. Mesmo com alívios provisórios. Mesmo assim.

Quando o cuidado desce do palco da salvação e assume sua forma menos espetacular e mais humana, a beleza que se revela é essa: pessoas reais e seus mundos possíveis. E não há, hoje, utopia mais urgente do que essa.

Essa é a base do que tenho chamado de curar sem resolver: um cuidado que não depende de solução, mas que se sustenta na presença, no vínculo e na continuidade possível. No próximo texto, vamos aprofundar essa discussão com exemplos concretos, práticas viáveis e estratégias possíveis.

A conversa continua em breve. Até já.

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