Reflexão 3 min de leitura

A Tristeza Aleatória

Um sentimento novo parece atravessar o cotidiano, fruto do excesso, da fragmentação e da saturação.

Um sentimento novo parece atravessar o cotidiano, fruto do excesso, da fragmentação e da saturação. Surge sem motivo claro, é disperso e difícil de nomear.

É sobre essa sensação difusa que me proponho a refletir neste texto, a partir do que observo em meu trabalho e nas relações de maneira geral.

Hoje, vivemos imersos em ambientes que maximizam a aleatoriedade, redes sociais, feeds infinitos, timelines que misturam tragédias, piadas, fofocas, teorias, vídeos fofos, violência, publicidade e conversas íntimas, tudo no mesmo espaço e sem hierarquia.

A cada rolar de tela, somos catapultados para um universo totalmente distinto do anterior. Esse tipo de entretenimento é uma forma de trabalho e não de descanso. Na verdade, nele, estamos mergulhados em uma ocupação infinita e, ao mesmo tempo, nunca nos sentimos preenchidos.

Somos expostos a milhões de possibilidades, e isso faz com que a percepção de significado se dilua, gerando uma exaustão profunda, fruto desse constante saltar entre emoções, sem nunca termos permissão para habitar nenhuma, sem que sentido algum se complete.

O resultado é uma sensação de vazio e uma tristeza que se instalam não pela falta de emoções, mas porque todas são tratadas como descartáveis. Falta tempo para que qualquer uma delas realmente importe.

Chamo isso de tristeza aleatória: ela não nasce de uma perda específica, mas de sucessivas microperdas: sentidos interrompidos e presenças que não chegam a se formar. É um luto por nada em particular e por tudo ao mesmo tempo.

É uma tristeza que nasce da falta de narrativa, de coerência e de continuidade entre as experiências, que já não se organizam em histórias com começo, meio e fim, mas se transformam em um amontoado de desconexões.

Não fomos feitos para viver nesse fluxo aleatório. Nossa natureza é rítmica, cadenciada; precisamos de histórias que se estendam no tempo. Quando elas desaparecem, ficamos à deriva, imersos em estímulos que apenas nos exigem mais estímulos.

Lidar com essa tristeza aleatória é difícil, porque ela não pede amparo, consolo e nem alegria. Ela pede pausa, ou seja, um espaço onde algo possa durar o suficiente para ser sentido, para permanecer, durar e se completar dentro de nós antes de ceder lugar ao próximo estímulo.

Estamos tão imersos nessa tristeza difusa que, mesmo quando aceitamos a pausa, o silêncio que vem depois parece nos ameaçar. Desconectar-se tornou-se quase insuportável, como se o ruído constante fosse ao mesmo tempo o que nos esvazia e o que nos impede de sentir o vazio.

Tenho percebido como se tornou difícil para muitas pessoas reconhecer e nomear o que sentem. Foi por isso que escrevi este texto: para tentar dar nome a um sentimento contemporâneo: a tristeza aleatória. Essa forma de melancolia que é difícil identificar a causa e que não tem direção, mas que nos atravessa silenciosamente, minando os elos, os entres, as relações, nos deixando completamente exaustos emocionalmente, enquanto, supostamente, apenas, nos divertimos.

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